
Uma
das maneiras de manifestarmos o nosso bem querer para com alguém que
muito prezamos é oferecer-lhe um presente. O presente dá-nos a sensação
de que “materializamos” a nossa afeição, tornamos visível a nossa
simpatia, e “prolongamos”, conforme a durabilidade do mesmo, o nosso
afeto...
“Mais vale o modo de dar do que aquilo que se dá”,
dizem alguns. Mas não há dúvidas de que, ao presentear, procuramos –
sempre que possível – adequar o valor do presente a ser dado à estima
que queremos demonstrar.
Consumismo e apelos comerciais à parte,
a época do Natal é um desses tempos fortes – creio que o mais forte
deles – em que a prática de presentear pessoas ganha força e dinamismo
em praticamente todas as culturas, em todas as sociedades. Variando um
pouco de região para região, esse costume de presentear os outros
parece vir sempre associado ao “aniversário” do nascimento de Cristo,
ou ainda aos presentes que alguns magos lhe trouxeram quando o
visitaram, em Belém.
Ano após ano, aproximando-se as
festividades do Natal, a preocupação de todos parece voltar-se para a
necessidade de presentear, de alguma forma, os que nos são caros, ou
aqueles a quem devemos favores e obrigações...
E o
aniversariante? E Aquele por cujo nascimento todas estas práticas se
desencadeiam? Em que grau de estima e apreço o colocamos, e qual é a
nossa preocupação em dar-lhe um presente à altura de sua dignidade?
Pois Jesus é a causa de nossa existência. Tudo (inclusive nós) foi
criado por Ele e para Ele. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu Corpo.
Ele é o Princípio, o Primogênito dos mortos (tendo em tudo a primazia),
pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a Plenitude, e a
reconciliar por Ele e para Ele todos os seres, os da terra e os dos
céus, realizando a paz pelo sangue de sua cruz (Col 1, 16c-20). “E é
pelo sangue dele que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo
a riqueza de sua graça, que Ele derramou profusamente sobre nós” (Ef 1,
7-8a).
Na verdade, Ele é que é o nosso presente. Ele é quem
realmente nos foi dado por Deus Pai, como Dom pessoal, como expressão
máxima de sua própria pessoa, de sua própria revelação, de seu próprio
mistério. Ele, sim, é o maior – e o melhor! – de todos os presentes...
Em que consideração não nos deve ter o Pai – e com que amor não nos
deve amar – a ponto de nos dar o Seu Filho Único, para morrer a morte
que nós merecíamos, e nos dar a vida que era dele? “Pois Deus amou
tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele
crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).
“Que poderíamos retribuir ao Senhor, por tudo aquilo que Ele nos tem dado?” (Sl 116, 12).
“Fui
eu quem fez o Universo e tudo me pertence, declara o Senhor. Mas é o
angustiado que atrai meus olhares; o coração contrito, que teme a minha
palavra” (Is 66,2).
Talvez possamos neste Natal retribuir a este
imenso amor de Deus Pai para conosco com um coração realmente
compungido, arrependido dos desamores por nós vividos até aqui. Um
coração consciente do quanto carecemos de sua graça e da importância da
restauração oferecida pelo Filho na Cruz; um coração, enfim, que quer
se deixar conduzir pelo “Espírito que nele foi derramado” (Rm 5, 5) e
viver em fidelidade à vocação a que Deus nos chama.
Tudo lhe pertence sim, mas “um coração arrependido e humilhado, Ele não haverá de desprezar” (Sl 51, 19b). Amém.
